quinta-feira, 27 de setembro de 2007

2 - O mico

Terça-feira. Sete horas. Ainda bem que consegui arrumar tudo no meu novo apartamento. Mudança é uma bagunça, sempre uma bagunça. Mas ainda bem que já deixei o apartamento um brinco. Foi ótimo ter me mudado no fim de semana, até porque era o meu único tempo disponível. Só tenho o domingo livre, e sábado sim e sábado não, mas tive que pegar este sábado de folga. Chato isso! Espero não ter tirado a paz do morador aqui do lado. Vou chamar o Júlio pra gente comemorar o meu novo cantinho. Ah, Júlio é o meu namorado, namoramos há 2 anos. Eu o amo, mas ultimamente sinto que ele anda um pouco estranho. Bom, mas ele diz que é muito trabalho, e eu acredito, claro, porque ele iria mentir pra mim? Afinal ele me ama também. Bom, pelo menos ele me diz que me ama. Não vejo porque não acreditar. Tudo bem que ele não me faz subir pelas paredes na hora do sexo. Mas, com meus outros namorados era a mesma coisa, então acho que é assim mesmo. Mas não gosto quando ele chega antes e eu tenho que lançar mão do fingimento. Como os homens são bobinhos... basta dar alguns gemidos mais fortes, falar uns palavrões e pronto eles acham que nos levaram ao céu.

Meu nome é Joanna, tenho 32 anos, meus cabelos são longos e cacheados e sou ruiva, tenho olhos verdes, trabalho para uma rede de supermercados e sou gerente de uma unidade. Fui transferida recentemente, trabalhava aqui mesmo em Curitiba, apenas em outra unidade. Este é maior, aceitei o desafio. Formei-me em administração de empresas há 10 anos e desde então trabalho nesta empresa, mas fui galgando posições e hoje estou como gerente. Sou feliz, tenho um bom emprego, um namorado que eu amo, e agora estou de cantinho novo. Ainda não conheci meu vizinho. O prédio que eu moro tem dois apartamentos por andar. Sempre ouço quando ele sai. Haverá tempo suficiente para eu conhecer quem mora ao meu lado. Não gosto desta coisa de não saber quem está ali, a poucos metros de você.

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Terça-feira. Seis e meia da manhã. Dormi mal, acordei suada e sexualmente molhada, tinha acaba de sonhar com uma certa ruiva, foi um sonho extremamente quente. Carência, isso é carência pura!! Preciso ver como está a minha agenda e tirar essas minhas férias. Iria tirá-la daqui a dois meses, mas vou antecipar. Estou necessitada deste tempo para mim. Ao chegar no consultório às sete e meia, chamei minha secretária até minha sala.

- Bom dia, Carol!

- Bom dia, Dra. Marta.

- Carol, quero saber como está a minha agenda, pois gostaria de tirar duas semanas de férias. Seria semana que vem e a outra. Sei que a tinha programada para daqui dois meses, mas estou há quase dois anos sem tirar férias, e convenhamos ninguém merece ficar tanto tempo assim sem descansar.- E dei uma gargalhada.

Carol também riu e me respondeu:

- Bom, Dra Marta, acredito ser perfeitamente possível ajustar os horários, mas terão alguns pacientes que vão ter que ser atendidos provavelmente no sábado.- Disse isso, e me olhou, pois ela sabe que o-d-e-i-o trabalhar no fim de semana.

- É... se não tiver jeito de adiá-los, faço isso então. Embora a idéia de trabalhar no sábado não me agrade nem um pouco, mas em prol das minhas férias, eu faço este sacrifício.- Disse resignada.

- O paciente das nove horas cancelou, pois teve um imprevisto. - Disse-me Carol. Eu detestava quando isso acontecia, mas não podia fazer nada.

- Fazer o que. Vou aproveitar o horário e dar uma olhada naquele livro sobre próteses que eu comprei.- Disse, e Carol saiu da minha sala.

Tinha acabado de fazer uma especialização em próteses. Cansei de mandar meus pacientes para outros profissionais. Agora eu mesma fazia esta parte. E eu gostava de fazer isso. É, posso dizer que faço o que amo. Já tenho meu consultório há 5 anos. No início não foi fácil, mas agora tenho uma excelente clientela.

À tarde, Carol me comunicou que conseguiu ajustar minha agenda para que eu pudesse sair de férias. Teve 5 atendimentos marcados para o sábado. E, infelizmente, teria de fazer um atendimento no domingo de manhã. Era um caso especial e não podia deixar de atender este meu paciente. Pretendia sair no domingo à tarde. Iria para um hotel fazenda, não muito distante daqui. Acho que ter um contato com a natureza seria maravilhoso.

Terminei meu expediente, e claro, como não concluí a compra dos itens para a casa, tenho de voltar ao supermercado. Imediatamente lembrei-me da ruiva. E do sonho que tive com ela esta noite. Preciso de um banho frio. Gelado! Mas tenho o supermercado antes. E com certeza, a pesquisadora de preços não vai estar lá, deve estar em qualquer outro mercado, naquele de novo não. Com este pensamento em mente dirigi-me ao supermercado.

O supermercado é daqueles bem grandes, com um estacionamento grande, o que é bom pra nós, clientes. Horrível quando se vai a algum lugar e não tem onde estacionar o carro. É, não tem jeito de fugir dessa coisa chata de ir ao supermercado, só sobra pra mim mesmo. Quem manda morar sozinha. Sobram as coisas boas e as não tão boas pra serem feitas. Pego um carrinho pequeno e lá vou eu para esta grande aventura.

Após a extenuante tarefa de escolher tudo o que eu queria, agora só falta passar no caixa. Sabe o que é pior, por várias vezes me flagrei procurando a ruiva pelo supermercado, a cada nova sessão que eu entrava, meu coração batia descompassado esperando encontrá-la ali. Chato isso. Preciso esquecer essa mulher, nunca mais devo vê-la. A cidade é grande, quais as chances de encontrá-la de novo? E mesmo se encontrá-la, o que vou dizer? Não tenho menor noção de quem ela é. Larga de pensar nela, poxa! Vou embora pro caixa pagar isso aqui.

Levo um susto. Não acredito!!! É ela! Ela está lá em cima encostada na porta do escritório do supermercado. Será que trabalha aqui??? Meu coração está a trezentos por hora. Tem um tambor dentro da minha cabeça. Meu deus, que loucura é essa? Vou andando e olhando pra cima, droga, não consigo desviar o olhar. BAAAAAMMMMMMMMMM.... Nããããooooooo..... não olhei para onde estava indo e trombei com uma banca de promoção de leite condensado em lata... vocês não conseguem imaginar a cena: estou sentada no chão, com latas por cima de mim, tudo, mas tudo caiu! Uma verdadeira tragédia. Eu mereço, bem feito.... droga, droga, droga. E o mercado inteiro me olhando. Tudo isso aconteceu em poucos segundos. Que vergonha. Queria abrir um buraco no chão e me esconder. Que vontade de chorar. Droga, por que tinha que acontecer isto justo comigo?

- Você está bem? Ouço uma voz suave me perguntando.

Olho... fico petrificada, era ela, me olhando com aqueles olhos verdes lindos. Ela é toda linda! Fico parada olhando ela.

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