domingo, 30 de setembro de 2007

5 - Recordações

Como é costume desde que namoramos, Júlio sempre vem passar o fim de semana em minha casa. Poucas vezes ficamos na casa dele. Eu prefiro assim, pelo menos tenho minhas coisas à mão, meus cremes, perfumes, sem contar que nunca sei com que roupa quero sair. Já os homens são mais práticos com estas coisas. Sempre estão prontos.

Sábado à noite, jantamos fora. Fomos a um restaurante de comida italiana em Santa Felicidade. Cozinha italiana é a minha perdição. AMO! Estava gostoso, conversamos sobre um monte de coisas e daí fomos para minha casa, namorarmos um pouco, afinal ninguém é de ferro. Eu não sei o que está acontecendo, mas sinto ele um pouco diferente, ele era mais carinhoso, mais cuidadoso comigo. Parece não se importar mais com meu prazer. O pior é que em vez de eu conversar isso com ele, eu fico com receio, sei lá, de magoá-lo talvez. E o pior ainda é que eu acabei tendo de fingir mais uma vez... isso está se tornando uma constante. Não acho isso legal. Não posso continuar assim, tenho que conversar com ele. Eu estava em minha cama, e olhei para ele dormindo. Hoje é domingo e já são dez horas. Vou levantar-me, e pelo que conheço do Júlio ele vai até o meio-dia. Ele é médico cardiologista, tem 35 anos. Tem uma carreira de sucesso. Tem o consultório e trabalha em mais dois hospitais. Às vezes ele tem de fazer plantão nos finais de semana, pelo menos um por mês. Quase não tem tempo para ele. Mas ele adora ser médico. Diz que era sonho de criança.

Fui pra cozinha providenciar o meu desjejum. Combinamos de ir ao cinema no final da tarde. Vamos ao Shopping Estação. Eu gosto de lá, mas gostava bem mais antes da reforma que fizeram. Agora ficou com cara de shopping mesmo e o que não falta nessa cidade é shopping center. Antes tinha aquele ar bucólico de uma antiga estação de trem da cidade. É, a modernidade vai tomando conta de tudo!

Enquanto tomava meu café da manhã, lembrei-me de Marta. Que situação, trombar com o estande das latas de leite condensado. Nossa, quando eu vi aquilo acontecendo, desci as escadas com uma rapidez impressionante. Poderia ter me machucado também. Nunca me aconteceu isso de trombar, mas acho que se acontecesse ia ficar com uma vergonha imensa. Fiquei com pena dela naquele momento. Ela estava vermelha de vergonha. O máximo que eu poderia fazer era tirá-la dali, porque as pessoas ficam olhando e acabam constrangendo mais ainda a pessoa. Gostei de conversar com ela. Espero que ela realmente apareça para tomar um cafezinho, é uma companhia agradável. Quem sabe poderemos ter uma bela amizade. E com este pensamento na cabeça passei o meu domingo.

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Segunda-feira. Adoro este ar da fazenda. Hoje de manhã fiz um passeio a cavalo juntamente com alguns hóspedes. Neste exato momento, estou deitada numa rede embaixo de algumas árvores, como isso é bom. São 4 horas da tarde, o tempo está firme e ensolarado, e claro, quente também. Acho que vou aproveitar e vou tomar um banho de piscina. quem sabe eu consigo uma corzinha desta vez... porque todas as outras tentativas deram em nada. Fiquei foi vermelha feito um pimentão. É, pele branquinha igual a minha não dá pra insistir, ah, como eu queria ter uma corzinha mais pra chocolate. Mas não adianta, sou branquela e pronto!

D. Helena disse-me que Fabiana deve retornar à fazenda na quarta-feira. Estou ansiosa para conversar com ela e matar as saudades da minha amiga. Crescemos juntas, fazíamos cada arte por esta fazenda. Lembro-me de uma delas, quando queríamos despistar o Jeremias, que vivia insistindo pra ficar com a gente e nós querendo mais privacidade para termos "assunto de mulher". Tínhamos 13 anos e armamos de prendê-lo dentro do paiol, onde era guardado o milho para alimentar as criações. O coitado ficou lá, preso quase a tarde inteira. Quase apanhamos por causa disso, mas que foi divertido, foi! Ri sozinha. Os meus pais e os pais de Fabiana são “cumpadres” de casamento. Quando eram solteiros, faziam as suas festinhas juntos.

Fabiana sabe que sou lésbica, quando contei a ela disse-me que não se importava, desde é claro, que eu não me apaixonasse por ela, porque o negócio dela era homens, nada de mulheres! E não queria ver a melhor amiga pendurada por causa dela. Essa minha amiga é um figura! Muito doida. Mas amo ela.

Estou aqui melecada de protetor solar, deitada na cadeira. Ai ai... ô vida boa essa!! Faz 10 anos que resolveram abrir o hotel fazenda. Idéia da D. Helena, mulher visionária. Começaram com 5 cabanas, hoje tem 28, e tem que reservar com antecedência, por que senão corre-se o risco de ficar sem. Fim de semana é uma loucura, mas é uma delícia. Existem duas cabanas que são flutuantes, nunca teria coragem de ficar nelas, mas são disputadas. Fica no lago que fica em frente às cabanas. Cada cabana tem sua garagem, e é equipada com uma cozinha com fogão, geladeira, pia, armários e mesa com cadeiras. Tem um beliche e no quarto tem uma cama de casal e tem um banheiro. Cabem 4 pessoas. São feitas de madeiras, bem rústica. Ano passado fizeram um campo de futebol e uma cancha de bocha. O pessoal da cidade vem passar o domingo aqui, como se fosse um clube, pois tem piscinas. Uma das coisas que eu adoro fazer, além do passeio a cavalo, são as trilhas. Uma delas dá para um pequeno riacho que tem uma cascata d'água. É a minha preferida. Amanhã cedo vou fazê-la.

Terça-feira de manhã. Estou a caminho da minha trilha favorita. Ela fica abaixo desse morro, e tem que descer uma escadaria com 116 degraus. Para descer é uma beleza, todo santo ajuda, mas para subir... bom, é ótimo pois vale como exercício. A trilha ladeia a encosta do morro e vou descendo cada vez mais até chegar ao riacho. Ai, aqui é uma paz imensa, amo este pequeno lugar. Sentei-me numa pedra e fechei os olhos. Comecei a lembrar do meu último relacionamento. Conheci a Amanda através de uma amiga minha, a Vanessa. Foi na festa de aniversário dessa amiga. Olhares pra cá, olhares pra lá e logo estávamos atracadas num papo interessante. Foi uma afinidade imediata. Em poucos dias já estávamos namorando e em menos de três meses estávamos morando juntas. Ah, isso me faz lembrar daquela piadinha infame: O que uma lésbica traz no segundo encontro? A mudança. Soltei uma gargalhada. Se alguém me visse ali naquele instante iria imaginar que eu estivesse louca. Vivíamos bem, mas depois descobri que Amanda sempre foi galinha. Me traiu diversas vezes. E eu achava que ela era apaixonadíssima por mim, bom pelo menos me fazia crer que era. Tinha ido fazer a minha especialização em São Paulo, pois um fim de semana por mês eu precisava comparecer nela. Mas dessa vez, retornei mais cedo. Era para ter chegado no domingo à noite e cheguei domingo de manhãzinha. Morta de saudades da minha morena. Quis fazer uma surpresa a ela chegando mais cedo, por isso não a avisei. Entro pé ante pé e vou até o quarto, mas quando chego na porta ouço gemidos e sussurros. Gelei! Não era possível. Abri a porta suavemente sem fazer barulho e vejo minha mulher amando outra em nossa cama! Foi insuportável ver aquilo. Uma dor lacerante no peito. Queria gritar, queria machucá-la, bater nela. Mas contive-me, fiquei ali observando até que seus corpos se saciassem e aplaudi. Aplaudi muito! Amanda levantou lívida da cama, não acreditando que eu estivesse ali. A outra começou a catar sua roupas pelo chão e a vestir apressadamente. Eu encarava apenas Amanda. A outra que se danasse! Esta saiu porta afora quase me atropelando e saiu do apartamento. Amanda começou a me dizer que não era nada daquilo que eu estava pensando. Soltei uma gargalhada histérica nessa hora. E disse que pegasse as coisas dela e que fosse embora dali. Não a queria mais ali. Ela chorou, pediu perdão, mas não quis saber. Disse que arrumasse suas coisas e saísse ainda pela manhã, pois eu iria sair e só retornaria mais tarde e que ela não estivesse ali quando eu voltasse. Quando voltei ela tinha feito isso. Deixou um bilhete dizendo que pegaria depois o restante das coisas que não levara naquele momento e ainda teve a cara de pau de dizer que iria me reconquistar. Pois sim! Ela tentou voltar algumas vezes, mas fui irredutível. Mais tarde vim saber que ela sempre me traía. Que aquela não era a primeira vez. Doeu saber disso. Você entrega o seu coração a uma pessoa achando que vai ser eterno, ... mas não é.

Mas chega de pensar nisso. Isso só me traz sofrimento. Quero pensar em coisas alegres. Estar aqui neste pequeno pedaço do paraíso me traz uma paz imensa. Adoro refletir sobre minha vida aqui. Gosto de fechar os olhos e ouvir o canto dos passarinhos, o barulho que a água faz correndo... adoro essa comunhão com a natureza. Me renova, me rejuvenesce, me revive.

Lembrei-me da ruiva, Joanna, nome lindo, aliás tudo nela é lindo. E tem um perfume maravilhoso, diria inebriante. Preciso traçar um plano para vê-la mais vezes. Quem diria, eu que odeio supermercados, traçando um plano para freqüentá-lo mais vezes. Ri sozinha. É, mas estou encantada, estou de quatro.. de quatro?!?!? É, estou definitivamente de quatro por esta mulher. A mulher do supermercado! Cabelos de fogo... é isso... um fogo... um fogo incontrolável que eu sinto quando a vejo. Isso é paixão, amor, sei lá... nunca me aconteceu antes ficar assim. Só sei que nunca senti algo tão forte assim antes. Mas tenho medo, medo de machucar-me novamente. Tenho medo de botar todas as fichas e sofrer uma decepção. Já tive uma recentemente e ainda estou me reerguendo. Nem sei se ela gosta de mulheres, e eu aqui já pensando em beijá-la, amá-la. Dei um sorriso triste. Levantei-me, resolvi voltar, tomaria um banho e iria encarar aquele “engordativo” café colonial e esperar Fabiana que chegaria amanhã.

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