segunda-feira, 1 de outubro de 2007

6 - Matando saudades

Eram dez horas da manhã quando Fabiana chegou. Veio logo me abraçando e me beijando no rosto. Ela estava linda. Uma morena jambo, um tesão de mulher. Olhos e cabelos compridos negros. E foi me perguntando:

- Quais são as novidades? Quero saber tudinho! Não me esconda nada, nem se atreva a fazer isso. Acabei rindo da sua curiosidade.

- Não tenho muitas novidades não. Tudo na mesma, minha querida. Respondi.

- Não vem que não tem. Você tá com um brilho diferente nesse olhar. Pensa que eu não te conheço, é? Arrumou uma namorada nova, aposto!

- Ah... quem dera tivesse arrumado.

- Mas tem rabo de saia nessa história. Me conta, vai!

- Bom... rabo de saia tem. Ambas rimos. - Você nem vai acreditar. E contei toda a história... da primeira vez que a vi, do episódio do pneu furado, e quando contei essa ela se matou de rir. Contei da minha trombada no leite condensado. Nessa ela gargalhou mesmo, já estava chorando de tanto rir.

- Pára tá, fica rindo assim, não conto mais nada.

- Ó, parei.. tô séria. E caiu na gargalhada de novo. Impossível não rir junto.

Contei tudo o que aconteceu. Ela ficou me olhando com uma cara estranha, e quando eu ia perguntar o que era, ela diz:

- Caraca... Martinha, você está apaixonada!

- É Fabi, acho que tô mesmo. E não sei como lidar com isso.

- Minha amiga, desejo boa sorte pra você. Você sabe que eu odeio ver você sofrendo. Quando Amanda fez aquilo, fiquei com vontade de dar uma surra nela.

- É, eu sei. Mas, desta vez fui flechada mesmo. Fabiana me abraçou.

- Eu quero ver você feliz, isso é o que me importa. Disse e me deu um beijo na testa.

Ficamos ali abraçadas por mais alguns segundos, quando me lembrei do que D. Isabel me disse sobre o novo namorado de Fabiana.

- Me diz uma coisa? Perguntei. - E esse teu novo namorado?

- O Augusto? É só um passatempo. Quero nada sério com ele não. Riu. - Enquanto não aparece coisa melhor vou aproveitando ele.

- Você é maluca mesmo.

- Ele é gostosinho, faz bem feito. Deu uma gargalhada gostosa. - Mas não o amo. É só diversão mesmo.

- D. Isabel disse que ele tá de olho na fazenda. Falei rindo.

- E eu não sei! Mas deixa o coitado achar que tá abafando, na hora que ele começar a me incomodar mando ele pastar. Sentenciou.

- E o seu pai, o Seu Juca? Onde ele está?

- Bom, depois que mamãe e ele se separaram, ele ficou com a fazenda do Mato Grosso e tá por lá. Sabe como meu velho é, né.

- Sei, um cabeça dura! E quando foi a última vez que ele veio aqui?

- Já tem dois meses. O Leandro foi com ele dessa vez. Meu irmão resolveu que quer ficar por lá.

- Poxa, as mulheres da família de um lado, e os homens do outro.

- Pois é, menina. Família é bom no retrato. E Gargalhamos.

Fiquei na fazenda até a próxima quarta-feira, quando decidi ir embora. Tinha decidido dar um pulo em Joinville ver meus velhos. Estava com uma saudade imensa deles. Cheguei em Joinville no final da tarde, e como sempre, chovendo! Eita cidade da chuva. Sabe onde fica Joinville? Não?? É a segunda nuvem à esquerda da BR-101. Outra piadinha infame. Está um calor abafado, insuportável. Carro com ar condicionado aqui não é luxo, é item de primeira necessidade. Parece que a gente está dentro de uma sauna. A umidade aqui é absurda, se ficar sem usar as coisas, mofa tudo. Nem sei como consegui viver nessa cidade por tanto tempo. Gosto da estrutura que oferece, mas do clima...

Meus pais sabem que sou homossexual, me abri com eles quando tinha 22 anos. Não foi fácil, sofri rejeição, mas esse momento já foi superado. Hoje nos damos super bem, isso não atrapalha em nada. Na época que me abri, fazia a faculdade e namorava uma garota da mesma sala que a minha. Tínhamos a desculpa de estudar as mesmas matérias, fazer os mesmos trabalhos, mas com o tempo achei melhor abrir e contar tudo. Namoramos por quase dois anos. Sabe quando você não agüenta mais aquelas cobranças do tipo: Você não vai arrumar um namorado? Você tem namorado? Cadê seu namorado? Na realidade a minha família inteira sabe. Bom, acho que foi bom ter contado, pelo menos parou as cobranças de ter um homem em minha vida. Passei a viver mais feliz. Sinto-me livre.

Cheguei na casa de meus pais e foi aquela festa. Matei a saudade que tinha deles. Saí muito com minhas irmãs. Tenho duas, Mariana, de 26 anos e Melânia, de 22 anos. Ambas tem seus namorados. Notaram que nossos nomes começam com a letra M? Pois é, maluquice do seu Manoel a D. Miriam, meus pais, quiseram que a família toda tivesse essa letra. Coisa de doido. Matei a vontade de comer a comida da minha mãe. Conversei muito com meu velho. Ele estava muito ansioso, pois iria se aposentar no mês seguinte. Falei pra levar a mamãe numa viagem ao nordeste e ele gostou da idéia. Fiquei até domingo, após o almoço peguei a estrada de volta para Curitiba. Valeu a pena essas férias, me sinto outra. E amanhã é dia de pegar no batente de novo.

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