sexta-feira, 12 de outubro de 2007

15 - Fuga

De repente Joanna sai de cima de mim e senta na cama e coloca as mãos na cabeça, numa atitude clara de desespero. Que pena que acabou, agora que senti o gosto da sua boca, não saberei sobreviver sem ele. Ela fala sem me olhar:

- Eu.. eu... me.. me desculpe, eu... não sei o que me aconteceu. Gagueja nervosa.

Entendi que ela estava sem saber como agir, afinal acredito que este tenha sido seu primeiro beijo em uma mulher. O que levou ela a me beijar. Foi vontade? Desejo de saber como era? Se tivesse sido eu a dar o primeiro passo poderia dizer que tinha perdido a cabeça ou algo assim. Ela sabe que gosto de mulheres, mas e sendo ela a ter dado o primeiro passo. Como devo agir? Ela estava toda sem graça. Nervosa.

- Olha, não se preocupe. Aconteceu. Eu não quero que você fique assim, sem graça. Falei carinhosamente e olhei para ela. Ela me olhou envergonhada.

- Sinceramente, me desculpe. Eu...

- Pare de se desculpar. Interrompi ela. - Isso não é o fim do mundo. Foi apenas um beijo. E caraca... como você beija bem. Falei dando uma risada. Queria quebrar o estresse do momento.

- Para tá, boba! Riu também. Fiquei aliviada. Tudo o que eu não queria era criar uma situação constrangedora com ela.

- Agora você pode devolver meu boné? Perguntei sorrindo e estendendo a mão para pegá-lo. Ela pegou ele e me jogou na cara dando uma gargalhada.

Terminamos de arrumar nossas coisas, botamos tudo no carro. Nos despedimos do pessoal e pegamos a estrada. Chegamos no condomínio e cada uma foi para o seu apartamento, pois estávamos cansadas e queríamos mais era uma cama para estender nossos esqueletos.

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Joanna tinha acabado de tomar um banho e comer alguma coisa. Estava deitada em sua cama. Não conseguia conciliar o sono. Estava agitada demais, tentando entender porque beijara Marta. Simplesmente fizera porque sentira uma imensa vontade de sentir aquela boca na sua. Desde o episódio do quase beijo do cinema essa vontade a atormentava. Quando percebeu, estava beijando Marta, nem teve tempo para pensar. Ela correspondeu e foi o beijo mais maravilhoso de toda a sua vida. Macios. Lábios macios. Jamais imaginara que os lábios de uma mulher fossem tão macios, tão suaves. Sentiu vontade de ir mais longe. De fazer amor com Marta. Por isso levantara bruscamente, se assustara com a idéia. Não curtia mulheres. Não estava entendendo porque agira daquela forma. Preocupou-se. Precisava parar com isso. Precisava acabar com esse desejo. Sim, desejo. Compreendia agora. Desejava Marta. Nunca desejara um homem tanto quanto desejava Marta. Precisaria se afastar da amiga. Seria doloroso, difícil, mas era o que precisava ser feito. Passaria a evitar as ligações dela, evitaria sair com ela. Precisava cortar isso antes que tomasse corpo. E começaria isso a partir de agora. Sabia que iria magoar Marta ao tomar esta atitude, mas era o que precisava fazer. Só assim poderia acabar com esses pensamentos absurdos. E tentar levar sua vida da maneira que julgava ser a correta.

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Já era quarta-feira e comecei a estranhar, pois nos falávamos diariamente. Resolvi ligar para Joanna, e sua secretária informou que ela estava ocupada em uma reunião. Deixei recado. Estava feliz. Gostaria de saber por que Joanna me beijara. Se curiosidade matasse, tava mortinha, mortinha. Lembrava-me constantemente do beijo. E cada vez que isso acontecia meu corpo reagia como se estivesse acontecendo naquele momento. Meu corpo ficava em brasa. Meu sexo latejava. Chegava a doer de tanta vontade. Ficar molhada era pouco, ficava era encharcada. Nenhuma mulher antes tinha me deixado dessa forma. Precisava sentir novamente aquela boca, sentir aquele corpo colado ao meu. Senti que enlouqueceria caso isso não acontecesse.

Conversara com Fabiana na noite anterior. Ela me ligara. Dissera estar preocupada comigo, pois percebeu como eu estava envolvida com Joanna. Literalmente de quatro. Tinha receio de que eu sofresse. E que não queria que isso acontecesse. Perguntei se era tão evidente assim meu interesse por ela. Respondeu que sim, que até um cego veria meu amor por ela. Suspirei. Pena que Joanna não percebe. Quem eu gostaria que percebesse não vê. Lamentei.

Joanna não me ligara. Mesmo deixando recado. Será que ela estaria me evitando? Gelei com este pensamento. Isso seria a morte para mim. Quando nos despedimos no domingo à noite, parecia estar tudo bem. O estresse pelo beijo parecia ter sido superado.

Na quinta-feira tentei novamente falar com ela, e novamente fui informada que ela estava em reunião. Diacho. Ela nunca teve tanta reunião assim. Sempre que ligava ela me atendia, na verdade ela nunca parecia estar ocupada para mim. E agora isso? Na sexta-feira a mesma coisa, só que a desculpa fora outra, que ela tinha saído. Novamente deixei recado e fui mais uma vez ignorada. Tive a certeza de que ela estava me evitando. Senti meus olhos molhados. Uma lágrima escorreu quente, pelo meu rosto. E mais outra e mais outra, até cair num choro copioso. Chorei muito. Senti o coração apertado. De repente o mundo ficou cinza. Como o inverno que estava chegando.

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