segunda-feira, 8 de outubro de 2007

11 - Decepções e revelações

Senti um soco no estômago ao ouvir o que Joanna acabara de dizer.

- Júlio? Quem é Júlio? Disparei a pergunta sem pensar.

- Oh, não te falei. Júlio é o meu namorado. Falou-me sorrindo.

E nesse exato momento minha felicidade acabava de morrer. Senti-me sufocar, faltava-me o ar. Eu sou muito boba mesmo, desde quando uma mulher linda desta vai estar sozinha... e o que é pior, ela é hétero. Esta confirmação me destruía a alma. Nunca teria uma chance com ela. Não tinha nem como tentar lutar. Já era guerra perdida. Queria sumir, fugir dali. Mas não podia, teria que fingir uma alegria que eu não estava sentindo. Não poderia deixar ela perceber a minha decepção, afinal ela não fez nada para eu me apaixonar por ela, simplesmente aconteceu.

- E vocês vem muito aqui? Perguntei, tentando não demonstrar a minha imensa tristeza.

- Sim, nós já jantamos em todos os dez salões. Falou feliz. – Júlio adora vir aqui. E a cozinha italiana é a minha perdição.

- É mesmo? Pois é a minha também, mas também sou louca por comida chinesa. Amo as duas. Falei um pouco mais conformada com a situação. Se é que eu poderia me conformar com isso.

- Hummm... da próxima vez poderíamos ir a um restaurante chinês. O que você acha?

0 que ela queria? Me dar falsas esperanças? Eu teria que começar a me afastar dela, pois percebi que sofreria muito se continuasse a levar adiante esta amizade. Mas como fazer isso? Só de pensar já me doía o peito. Teria que pensar numa maneira, mas não agora.

- Legal. Acho legal. Disse tentando dar um sorriso. – Vocês namoram há quanto tempo? Perguntei, já que estou na chuva é pra me molhar mesmo. Estou curiosa de saber como é o relacionamento deles.

- Namoramos há dois anos. Mas estou sentindo nossa relação desgastada. Disse demonstrando uma certa tristeza.

- Por que acha isso? Perguntei mais curiosa do que nunca.

- Ele não é tão carinhoso quanto antes, eu o estou sentindo meio distante. Cheguei até a cogitar a hipótese dele ter arrumado outra. Confidenciou para mim.

- Você o ama? A resposta desta pergunta era vital para mim.

- Acho que sim.

- Acha?!? Não tem certeza? Perguntei começando a gostar daquela conversa.

- Nestes últimos três meses comecei a não ter tanta certeza assim se eu o amo. Quero acreditar que o amo, mas não estou feliz. É como se faltasse algo que me fizesse mais feliz. Confessou com uma tristeza estampada naqueles olhos verdes que eu tanto amava.

Gostaria que ela realmente fosse feliz. Mas sou egoísta, queria que ela fosse feliz ao meu lado. Horrível isso. Mas no amor e na guerra vale tudo. Passei a ter esperanças de conquistar aquela mulher. Só não sabia ainda o que ela pensava de uma relação homossexual. Se era homofóbica ou não. Tenho que ir com calma, pois posso por tudo a perder.

- Já conversou com ele a respeito? Perguntei interessadíssima no papo. Nesse instante chegam nossos pedidos. Nos servimos e ela responde:

- Uma vez tentei, mas ele desconversou e fico com receio de tocar no assunto de novo. Sei que homens não gostam de discutir a relação. Disse dando um leve sorriso.

- É verdade, mas você não pode ficar nessa situação. Tem que tomar uma atitude. Aconselhei-a.

- É, mas chega de falar de mim. E você? Sei que não tem namorado. Mas tem alguém em vista? Joanna me perguntou sorrindo.

- Tenho, tenho você em vista. Pensei, pois não teria coragem de dizer isso a ela nesse momento. Apenas disse: - Não, não tenho ninguém em vista.

- Está há muito tempo sozinha? Joanna quis saber.

Senti-me um pouco desconfortável com a pergunta, pois não queria mentiras em nossa amizade. Decidi que iria correr o risco de uma possível rejeição, mas diria a ela a verdade. E assim descobriria qual seria a reação dela.

- Estou sozinha há seis meses. ELA me traiu. Disse temendo a reação dela e já me arrependendo de ter falado.

- Ela? Como assim? Perguntou Joanna perplexa. – Você é....

- Sim, Joanna, sou lésbica. Desculpe te dizer assim, mas preferi que você soubesse. Eu não tenho porque me esconder. Disse temendo que a recente amizade acabasse nesse instante.

- Uau... posso dizer que você me surpreendeu. Jamais imaginaria que você fosse. Você é tão feminina Marta. Como pode isso?

- Puro estereótipo Joanna, as pessoas pensam que as lésbicas são só aquelas que se vestem como homens e se portam como tal. Mas não, somos femininas sim, somos mulheres acima de tudo. Expliquei a ela.

- Poxa, obrigada por me dizer. Não deve ser fácil se assumir assim. Comentou me olhando nos olhos.

- Não, não é, e confesso que fiquei com receio da sua reação. Achei que você iria se levantar e ir embora correndo e que nunca mais iria me querer ver na sua frente. Falei rindo e ela riu também.

- Olha, me assustei, porque não imaginava. Mas jamais faria isso. Embora eu não consigo entender o... o tipo de ... de relacionamento que tem duas mulheres, não significa que eu vá te desprezar. Falou e senti um imenso alívio.

A noite transcorreu sem maiores surpresas. Terminamos nosso jantar e fomos para casa. Eu na minha e ela na dela. Gostaria que fosse diferente. Mas não é. Combinamos de caminhar no parque amanhã cedo. Será ótimo. Pelo menos nossa amizade estava começando da forma mais sincera possível. Não tinha porque eu me esconder dela. Nunca fiz segredo da minha homossexualidade. E não começaria a fazer agora.

------------------------------------------------

Joanna estava deitada em sua cama e estava pensando em Marta. Pensava no quase beijo no cinema. Tinha desejado aquele beijo, sabia ser uma loucura, mas tinha. Como quisera ser beijada por ela. Mas tivera medo e recuara. Estava se imaginando beijando a amiga, sentindo aquela boca maravilhosa na sua. Como seria seu beijo? Qual seria o gosto da sua boca? Mas isso lhe assustava, pois não era lésbica, não curtia mulheres. Pelo menos nunca desejou beijar uma mulher antes de Marta. Seu negócio era homem. Tinha que dar um jeito de controlar isso. Precisava parar com este tipo de pensamento. Mas como?

Um comentário:

Unknown disse...

Olá!
Estou adorando o conto e principalemnte as SARDINHAS que Joanna tem...risos.

Beijos